domingo, 7 de março de 2010

Louca loucura.


Todo dia Jorge fazia sempre a mesma coisa, acordava, arrumava a cama, lavava o rosto, tomava café, escovava os dentes e ia trabalhar. Sempre nessa ordem, todas as tarefas executadas com precisão milesimal. No trabalho todas as suas coisas deviam estar no devido lugar, papéis no lugar dos papéis, canetas no lugar das canetas, copos descartáveis no lixo seco, não havia lugar para copos no ambiente clinicamente arrumado que era a mesa de Jorge.
Ao sair do trabalho era sempre a mesma coisa, passava no mercado, comprava pão e leite, se dirigia sempre ao caixa nº 3, não importando se os outros caixas estavam vazios. Caminhava do lado direito da calçada, sempre na contramão do transito de veículos, sempre dava o troco do supermercado (todo dia 1,25) para o pequeno mendigo da Rua 42, passava sempre ao lado da mesma árvore no parque e chegava em casa.
Para abrir a porta sempre fazia os mesmos movimentos, girava o pulso da mão esquerda a 30º para destrancar a porta , a maçaneta girava com a mão direita sempre no mesmo ritmo em que girava a mão esquerda. Entrava em casa e ia tomar banho, sempre cuidando para não pisar nos ladrilhos brancos do banheiro, enchia a banheira e ficava exatamente 15 minutos na água. Saia do banho, sempre com o cuidado de não pisar nas lajotas brancas, e ia fazer sua janta.
Todas as suas refeições eram feitas da seguinte forma, por ordem alfabética, se fosse arroz, feijão, bife e batatas fritas, ele comia nesta ordem, primeiro o arroz, depois as batatas fritas, na seqüencia o bife e por ultimo o feijão. Depois da janta assistia o noticiário na TV, sempre sentava no mesmo canto do sofá e sempre na mesma posição. Lia um livro e depois ia dormir.
Mas naquele dia não conseguia cair no sono, se virou, revirou, desvirou e nada, parecia um hambúrguer fritando em uma chapa. Uma angustia o corroia por dentro, algo de errado, algo que ele não havia feito ou havia feito pela metade. Então se lembrou, esquecera-se a TV ligada. Levantou, acendeu a luz do quarto, do corredor, da sala e viu que a TV estava desligada.
Voltou a deitar-se ainda com a angustia roendo-lhe a mente como um rato fazia com um pedaço de pão. Logo não se lembrava se havia desligado a luz da sala ou não. Levantou-se, ligou a luz do quarto, do corredor e viu que a sala estava escura como o breu. Naquele momento pensou que tivesse deixado a água da banheira correndo, foi até o banheiro e nada. Voltou para a cama, nada da tal angustia passar, então ouviu um ruído vindo da cozinha.
Começou a tremer, ele sabia que algo estava errado, no mínimo esqueceu uma janela aberta, ou quem sabe talvez a porta da frente, logo muitas coisas passaram pela sua cabeça, até ele ter certeza de que iria morrer ali, por um ladrãozinho mequetrefe que nem sabia atirar. Então parou de tremer, se fosse para ele morrer, seria como um homem, ele não queria morrer de pijamas, isso seria inglório. Levantou e pegou o abajur, não iria morrer sem lutar, se dirigiu para a cozinha, no escuro, com as costas contra a parede, quando de repente sentiu algo roçando suas pernas.
Jorge deu um pulo para traz totalmente apavorado, ligou a luz tremendo e deu de cara com Iófus o gato do seu vizinho judeu. Aliviado Jorge pega o gato, abre a janela e joga ele fora, fecha a janela, confere se a porta está fechada, desliga todas as luzes e vai se deitar. Fica ali se revirando na cama como um hambúrguer fritando numa chapa gordurosa tentando se lembrar se desligou a luz da cozinha ou não.

4 Pedrada(s):

Van Zucchi disse...

HAHAHHAHA fantástico.
créditos pra minha grande participação com o nome do gato... hahahaha

Colhedor disse...

Ah, tenta ver pelo lado bom... Ele deve nunca esquecer o guarda-chuva. hehehe

Tri massa o texto Dony!

Abrasss!

Van Zucchi disse...

acho que ele era virginiano...

Darlan Schwaab disse...

Acho que ele era gay! Mt bom o texto Laranja